quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A quem serve o amor? Afetividade e solidão de mulheres negras.



(feito no paint 3D rsrs por Vanessa dos Santos)

Vanessa dos Santos da Conceição

 Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari 3 treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?”(E não sou uma mulher? – Sojourner Truth, 1851)
Durante todo o período escravocrata a mulher negra passou por diversos tipos de abusos, que feriram sua dignidade. Até mesmo nos dias atuais esse grupo sofre com a estrutura que decore desse período. A afetividade do povo negro passou a ser pensada, á parti da explosão do Feminismo negro norte americano. Nesse momento surgiu um enorme interesse nos estudo sobre os aspectos conjugais e sobre o celibato da população negra nas pesquisas demográficas, com recortes raciais e sexuais, em alguns centros acadêmicos brasileiros, diz Ana Cláudia Lemos Pacheco (2008).

Pesquisadoras negras discutem como a afetividade, ou a falta dela marca as experiências de mulheres negras. Bell Hooks (2000) afirma em “vivendo o amor” que a escravização foi um ponto crucial na formação do modelo de afetividade das pessoas negras. As crueldades vividas enquanto escravizados (as vendas de seus filhos, de seus amantes e familiares, as agressões, abusos) criou entre os negros um modelo de relação violenta e reprimida baseada no sistema de dominação que eram submetidos. Com o afastamento a que eram submetidos, praticar o amor nesse contexto poderia tornar uma pessoa vulnerável a um sofrimento insuportável, o que contribui para endurecer as relações entre a mulher negra e o homem negro.

A Pratica do amor não fácil, especialmente quando, por diversas vezes, se acredita que esse amor não lhe pertence. Ainda hoje esse modelo afetivo é reproduzido por meio da dificuldade de falar dos sentimentos, de demonstrar afetividade. No caso das mulheres negras a sociedade desenvolveu maneiras de negar esse amor de formas bastante explícitas. Um exemplo é a desvalorização da natureza feminina da mulher negra. Quando acontece uma situação de violência á comoção direcionada á mulher branca é maior do que quando acontece á uma mulher negra. Normalmente situações abusivas e violentas contra mulheres negras são facilmente invisibilizadas, esquecidas ou até mesmo justificadas por algum comportamento da vitima que passa assim a ser culpabilidade. Bell Hooks (1981) associa esse comportamento seletivo aos estereótipos dado as mulheres negras. Quando eram abusadas por homens brancos levaram fama de imorais, de sexualmente depravadas e perdidas.  E como justificativa para essa exploração sexual os abusadores diziam que esse comportamento era promovido pelas mesmas. Com isso as mulheres negras passaram a serem vistas como selvagens e não humanas.  Pode-se perceber esse discurso muito forte na literatura por exemplo.

Gilberto Freyre, para afirma uma suposta superioridade que acreditava existir entre mulheres brancas e negras utiliza um ditado que diz que “Branca para casar, mulata para foder e negra para trabalhar”(1933, pag.72) assumindo uma postura que separa e define um padrão de mulher para se formar um ambiente familiar.  Até nas músicas o ideal de mulher que é cantado não é a mulher negra. Sueli Carneiro (2001) afirmou em seu texto “Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero” que os poetas e os compositores que trazem em suas letras declarações desesperadas, cheias de romance e paixão, não se reportam às mulheres negras. Pelo contrario as musicas, essa que tem contato direto com o inconsciente coletivo só reforçam estereótipos negativos da ideologia do embranquecimento.
Essa mulher que teve sua humanidade destruída tem lugar na fila do amor?
Segundo a Antropóloga Claudete Alves da Silva Souza, em sua tese “A solidão da mulher negra – sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo” chegou à conclusão que: 

A análise dos dados mostrou que os sujeitos consideram que existe uma situação de desvantagem da mulher negra em comparação com a mulher branca no que concerne à preferência do homem negro na escolha de parceira afetiva e conjugal. Esta situação repercute com mais intensidade nas jovens negras, independente da classe social. O comportamento do homem negro foi percebido como resultado de uma desvalorização social da população negra do Brasil, de longa data, que vem estimulando os jovens negros a procurar clarear a família.  (SOUZA, Claudete Alves da Silva. A solidão da mulher negra – sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo. São Paulo, 2008.)
A autora confirma que há sim um preterimento da mulher negra pelo homem negro. No cotidiano é possível ouvir frases como “vai limpar a família” e “negra de barriga limpa” a primeira se referindo a uma provável gestação fruto de um relacionamento inter-racial e o segundo as mulheres negras que tiveram filhos de pele mais clara. Isso também diz muito sobre a afetividade entre pessoas negras. Homens negros ainda preferem mulheres brancas ou mesmo mulheres negras de pele clara (quanto mais clara mais aceitável) para manterem relacionamentos amorosos. Enquanto mulheres negras de pele retinta são mais propensas ao celibato definitivo.  
Ana Claudia Lemos Pacheco, por sua vez, ao desenvolver uma pesquisa, a qual foi realizada na Cidade de Salvador (considerada a cidade mais negra fora do continente africano), com mulheres negras ativistas e não ativistas para analisar as experiências desses dois grupos com a solidão. Teve como de objetivo perceber como as categorias raça, classe, gênero e outras influenciam nas trajetórias afetivas dessas mulheres a antropóloga concluiu que:

“... Pode-se afirmar que as mulheres negras investigadas, dos dois grupos estudados, tentaram burlar a solidão, isto é, a ausência de parceiros, atribuindo-lhes significações produzidas numa rede de emaranhados de categorias que denotam maneiras de pensar e de negociar às suas escolhas, na busca por outros caminhos, novos espaços sociais. Esses espaços se materializaram no trabalho, na família, na política, na comunidade, no bairro, na escola, no sindicato, na religião; produziram novas redes de relações sociais, redefinindo-as, quebrando tabus, lutando contra a opressão, politizando os seus corpos por meio de novos contextos corporificados.” (Pacheco, 2005, pag. 357, 358).

A antropóloga não nega o preterimento que é sofrido por esse grupo, no entanto mostra uma nova perspectiva sobre a situação de solidão e afetividade vivida por essas mulheres. A pesquisa vem afirmar que a solidão ganhou uma nova ressignificação e passou a ser lida por essas mulheres como um signo de libertação e não de submissão como quer o “feminismo” descontextualizado, que insiste em negar as diversas experiências (sociais e afetivas) dos sujeitos e de seus corpos, que nem sempre são “brancos de classe média e heterossexual.” (Pacheco, 2005, pag. 358).

 Mas a pergunta que não quer calar é: se esse comportamento é herança de uma estrutura decorrente de um passado escravocrata porque mulheres negras também não reproduzem esse comportamento?

Deve-se leva em conta que não apenas os homens negros estão sujeitos a esse comportamento, mas também as mulheres negras heterossexuais ou homossexuais. No entanto esse comportamento que é comprovado por meio de estáticas. Segundo os dados do Censo do IBGE de 2010, as pessoas que busca se relacionar com pessoas da mesma raças foi percebido de forma mais forte entre os brancos (74,5%), pardos (68,5%) e indígenas (65,0%). Conforme o estudo, 45,1% dos pretos estavam unidos alguém do mesmo grupo étnico, sendo que os homens pretos tenderam a escolher mulheres pretas em menor percentual (39,9%) do que as mulheres pretas escolhem os homens do mesmo grupo (50,3%).(Portal G1, 2012)

Contudo não resta duvidas de que afetividade de homens negros e homens brancos não são por mulheres negras, enquanto mulheres negras preferem se relacionar com pessoas da mesma raça. O padrão de mulher a ser amada, nem a de esposa parece não ser a mulher negra. O padrão do que se considera ser uma mulher, não é a mulher negra. Por sua vez, as mulheres negras encontraram alternativas para romper com esse lugar solitário que lhe foi posto. E conseguem transformar o que socialmente é visto como algo triste e melancólico em algo positivo, quebrando padrões de relações que esta dado.
É preciso salientar que esse trabalho fala de solidão na perspectiva de afetividade. A solidão da mulher negra não apenas diz respeito a ter ou não um parceiro, mas também quando não tem suas demandas por direitos atendidas, quando o seu luto pela execução de seus filhos pela Polícia não é respeitado, quando as mortes de negras/os são desprezadas, quando os seus conhecimentos são desvalorizados, quando recebem tratamento desigual nos serviços de saúde, quando sua sexualidade e a autonomia sobre o seu corpo não são respeitadas e sobre tantas outras situações.

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Referencias:

·         Carneiro, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na américa latina a partir de uma perspectiva de gênero. revista LOLA Press nº 16, novembro 2000.

·         FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala, 50ª edição. Global Editora. 2005.

·         Hooks, Bell. Vivendo o amor. Disponível em: https://www.geledes.org.br/vivendo-de-amor/ acesso. 13 de setembro de 2017.

·         Hooks, Bell. Não sou eu uma mulher. Mulheres negras e feminismo.  Plataforma Gueto. 2014 (1981)

·         NINA RODRIGUES, Raymundo. As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1934.

·         Mais de um terço de uniões no país é consensual sem casamento, diz IBGE. Disponível em http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/10/mais-de-um-terco-de-unioes-no-pais-e-consensual-sem-casamento-diz-ibge.html. Acesso em: 13 de setembro de 2017

·         SOUZA, Claudete Alves da Silva. A solidão da mulher negra – sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo. São Paulo, 2008.

·         Pacheco, Ana Cláudia Lemos.  Mulher negraAfetividade e solidão. Edição: 1ª. Editora: EDUFBA Ano: 2013.



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